quinta-feira, 13 de agosto de 2015

MEU TRABALHO, NA POLÍCIA

MEU TRABALHO, NA POLÍCIA


Tenho 25 anos de serviço na Polícia Civil do meu Estado de Rondônia, trabalhando como Escrivão de Polícia e em todos esses anos já vi e vivi muitas situações, não só de risco, mas de emoção e decepção.

Vi muita gente passar pelas delegacias por onde trabalhei, pessoas simples, humildes, pessoas arrogantes, advogados bons, outros de porta de cadeia, juízes, promotores, delegados amigos, outros nem tanto assim.

Certa vez quando meu avô Antonio Henrique (o velho Tota) ainda era vivia e era casado com a segunda mulher (que não era minha avó), esta, fazendo valer suas origens baixas, atacou meu avô após uma crise de bebedeira, que o velho Tota infelizmente fazia parte. Resultado da briga foi uma visita à delegacia onde eu trabalhava. Imagine chegar para trabalhar e em determinado momento você vê uma pessoa que ama ali, ferida, ensanguentada. Revolta é pouco. Infelizmente, por conta das nossas leis a pilantra não foi presa.

As decepções aconteceram com alguma frequência, pois em várias oportunidades me vi no papel de policial fazendo o trabalho de indiciamento de algum conhecido, amigo de infância ou de escola. É uma situação delicada e desconfortável. Até hoje lembro de um deles, Erick, que estou comigo no Colégio Dom Bosco, que enquanto fazia o meu trabalho comentou: “Puxa vida Henrique, como é a vida né? Estudamos juntos, em um dos melhores colégios da cidade, crescemos e a vida me transformou em um ladrão e você em um policial”.  Isso me marcou muito. E outra vez foi ver a derrocada de um outro amigo de escola, que fora preso por duas ou três vezes em meu plantão, tudo por conta de drogas. E este último a vida ainda foi mais ingrata. Quando eu penso que a droga teria destruído a sua vida, me deparo com a notícia que ele tinha se transformado em um professor, casado e constituído família, apenas para ser refém de índios revoltados com o governo e morto por sua intransigência.

Claro que nem tudo é tristeza ou notícias ruins. Vi muitas coisas boas também. Muita gente que a Polícia ajudou e que ficaram muito agradecidos, coisa rara nos dias atuais.
Talvez o caso que mais me emocionou recentemente foi o caso da menina Ana Beatriz, de dois meses (na época). A mãe foi colocada em um carro, com uma desculpa qualquer e os ocupantes do veículo tentaram matá-la, não conseguindo por pequenos detalhes, mas ainda assim sequestraram e levaram a bebê. Foi um trabalho minucioso, delicado e dedicado por parte de nossa delegacia, onde teve policial que virou noites e dias à caça dos bandidos.

Até que um dia a nossa sorte virou. Através de uma denúncia anônima conseguimos localizar o paradeiro da criança. Prendemos os envolvidos e a melhor parte foi quando devolvemos a filha para os braços de sua mãe. Todos aplaudiram e foi difícil segurar as lágrimas.

Ainda tenho mais um tempo na polícia e provavelmente verei ainda muitas ocorrências criminais, e mais histórias. Quem sabe o que nos aguarda.


Antonio Henrique Fernandes

Capitão deste Navio Errante.

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